Entre Doutrina e Cooperação: Impressões de um Treinamento Interagências com os BOPEs, COE e TIGRE

Entre Doutrina e Cooperação: Impressões de um Treinamento Interagências com os BOPEs, COE e TIGRE

28 de junho de 2025 2 Por Guilherme Vaz

Subtítulo:
Uma reflexão pessoal sobre cultura tática, doutrina operacional e maturidade institucional, a partir de uma vivência em treinamento interagências com BOPEs, COE e TIGRE.

Tempo estimado de leitura:
9 a 11 minutos

Categoria:
Tática e Treinamento

Palavras-chave:
treinamento interagências, BOPE, COE, TIGRE, CQB, doutrina tática, cultura operacional, forças especiais, hierarquia policial, cooperação tática, vulnerabilidade institucional, polícia militar, polícia civil, técnicas de combate urbano, respeito entre unidades

Caro leitor,
Permita-me uma breve apresentação: meu nome é Guilherme Vaz, sou diretor de design da EVO Tactical e, antes de qualquer cargo ou função, um nerd tático convicto — alguém que, há anos, se dedica ao estudo do comportamento das forças especiais, da funcionalidade dos equipamentos e das doutrinas que moldam a cultura operacional de combate moderno.

Este blog é meu espaço pessoal para refletir sobre tudo isso. E o que compartilho aqui hoje é menos sobre produtos e muito mais sobre pessoas, práticas e percepções — a partir de uma vivência concreta: minha participação em um treinamento interagências que reuniu algumas das principais unidades táticas do Brasil.

Nesta edição, estiveram presentes:

  • BOPE PMPR (Paraná)
  • BOPE PMDF (Distrito Federal)
  • BOPE BMRS (Rio Grande do Sul)
  • BOPE PMSC (Santa Catarina)
  • COE PMSP (São Paulo)
  • E o TIGRE da PCPR, representando a única unidade da Polícia Civil envolvida nesta ocasião.

A atmosfera: técnica, sim — mas surpreendentemente humana

Confesso que iniciei o evento com a expectativa — talvez até o preconceito — de que encontraria certo grau de rigidez doutrinária e disputas silenciosas entre protocolos distintos. O meio tático, como muitos sabem, não é estranho ao chamado narcisismo das pequenas diferenças: a tendência a transformar nuances operacionais em trincheiras de identidade.

Mas o que encontrei foi o oposto. A convivência entre unidades — especialmente entre os diversos BOPEs, o COE e o TIGRE — revelou um ambiente marcado pela maturidade, pela escuta ativa e pela ausência de vaidade institucional.

Mesmo diante de uma composição que envolvia praças, sargentos, tenentes e capitães, a hierarquia era notadamente presente, mas exercida com discrição e naturalidade. No caso dos BOPEs, por exemplo, a prática de se tratarem entre si como “Caveira”, independentemente de posto ou tempo de serviço, gerava uma atmosfera de respeito nivelado e coesão funcional rara de se ver. É possível dizer que a farda era um ponto em comum, mas o vínculo era mais profundo: vinha do reconhecimento mútuo da excelência técnica e da missão compartilhada.


Técnicas semelhantes, contextos distintos

Do ponto de vista técnico-operacional, a similaridade entre as doutrinas era evidente. Aproximadamente 80% a 90% dos procedimentos — incluindo progressões, entradas, varreduras e protocolos de CQB — seguiam uma mesma lógica fundamental, demonstrando um alto grau de convergência entre as unidades, independentemente do estado de origem.

Contudo, as diferenças estavam nos detalhes. E eram justamente esses detalhes que tornavam o encontro enriquecedor.

Cada unidade carregava ajustes específicos — variações muitas vezes sutis — moldadas por realidades locais concretas:

  • As dinâmicas de criminalidade urbana ou rural;
  • A geografia e topografia dos estados;
  • O clima predominante (úmido, seco, de mata ou litoral);
  • O acesso a determinados equipamentos e estruturas táticas;
  • As políticas internas de conduta, uso de força e logística.

Essas diferenças, longe de causarem atrito, eram recebidas com curiosidade técnica e respeito institucional. Era comum ouvir comentários entre os grupos sobre alguma solução adotada por outra unidade, acompanhados de análises ponderadas:

— “Interessante como eles controlam o segundo ponto de entrada com esse operador em ângulo baixo…”
— “Para a realidade de zona urbana verticalizada que eles enfrentam, isso faz todo o sentido.”
— “Funciona muito bem para eles, mas nosso cenário exige outro tipo de resposta.”

Não havia disputa de doutrinas. Havia escuta. Havia aprendizado.

E, principalmente, havia espaço para reconhecer que a técnica é sempre filha do contexto. Entender isso é um sinal de maturidade tática e institucional.


Treinamento como coreografia de combate

Outro ponto que me marcou foi a percepção da técnica como algo além da mera execução: em muitos momentos, o que se via era quase uma coreografia tática, precisa e eficiente.

A progressão fluía com ritmo e consciência espacial. A comunicação era econômica e funcional. O ajuste entre os operadores parecia quase intuitivo — e é claro que isso não é acaso. É resultado de treinamento real, recorrente e enraizado em doutrina viva.

É nesse ponto que a técnica encontra sua dimensão artística: quando deixa de ser mecânica e passa a ser expressão de domínio operacional e sintonia entre irmãos de farda.


Vulnerabilidade como ponto de partida para soluções

Um aspecto que considero pouco comentado — mas que se destacou fortemente nessa experiência — foi o papel da vulnerabilidade como gatilho de inovação.

Várias das soluções técnicas apresentadas por algumas unidades nasceram da escassez, da limitação ou da necessidade de adaptação a um cenário adverso. E isso era tratado com total naturalidade. Não havia vergonha em dizer:
— “Esse fluxo nasceu porque não tínhamos determinado recurso.”
— “Precisávamos ajustar nosso procedimento ao nosso efetivo reduzido.”
— “A solução foi construída a partir da realidade que tínhamos à disposição.”

E, nesse ponto, reforça-se uma verdade muitas vezes ignorada: a doutrina se constrói com base na necessidade, não na estética. A vulnerabilidade não enfraquece a tropa — ela exige engenhosidade. E quando há humildade, ela vira motor de crescimento.


Considerações finais

Caro leitor,
Ao final dessa imersão, o que ficou foi a certeza de que a verdadeira elite tática se reconhece pela maturidade com que trata a técnica, e não pela rigidez com que a impõe.

Vivenciar um ambiente onde profissionais de diversas origens partilham conhecimento com naturalidade, reconhecem as limitações com lucidez, e aprendem com respeito mútuo, reforçou em mim o que acredito ser a essência do serviço público de excelência:
humildade, adaptabilidade e propósito comum.

Como diretor de design da EVO Tactical, é claro que essa vivência também me traz insights para o desenvolvimento de equipamentos. Mas, acima de tudo, como observador atento da cultura operacional brasileira, essa experiência foi um lembrete:
a técnica é importante, mas o espírito com que se compartilha é o que define o legado.

Agradeço a leitura e, caso queira compartilhar suas percepções, experiências ou apenas continuar o diálogo, os comentários estão abertos.

Com respeito e admiração,