Multitools no Campo Tático e no EDC: Entre a Versatilidade e a Realidade da Robustez
Caro leitor,
Se existe um artefato que sintetiza o espírito do improviso, da adaptação e da eficiência no espaço mínimo, este é a multitool.
No bolso, no cinto, presa ao colete ou esquecida no fundo da mochila, ela carrega a promessa de substituir uma caixa de ferramentas inteira.
Na história militar moderna, desde os canivetes suíços do pós-guerra até os complexos modelos atuais, a filosofia é a mesma: a capacidade de resolver problemas de forma autônoma, no momento em que surgem.
Mas, no cenário real, essa promessa não vive sozinha — ela disputa espaço com fatores como resistência estrutural, pós-venda, peso, ergonomia e, inevitavelmente, preço.
Um operador, um aventureiro ou mesmo um cidadão comum que aposta em uma ferramenta dessas está, no fundo, firmando um pacto de confiança com um pedaço de metal.
Para este artigo, escolhemos analisar três modelos específicos pela relevância de suas marcas e pela frequência com que são encontrados no meio tático e EDC: Leatherman MUT, Leatherman Skeletool e SOG PowerPint. No entanto, é importante lembrar que o mercado oferece uma infinidade de outros modelos e fabricantes respeitados, como a Gerber, a Victorinox (em linhas mais voltadas para multitools robustas), a CRKT e até fabricantes especializados em nichos muito específicos. Todas elas apresentam opções viáveis, e a escolha final sempre deve levar em conta o perfil de uso e a filosofia de equipamento do operador.
A promessa e a função
Seja no campo de batalha ou no dia a dia urbano, uma multitool bem escolhida pode ser a diferença entre concluir uma tarefa em segundos ou ser obrigado a improvisar com recursos inadequados.
Mas “bem escolhida” é o ponto-chave.
Os três modelos que analisamos representam filosofias distintas:
- Leatherman MUT – Military Utility Tool, com engenharia voltada para o uso militar. Possui ferramentas específicas para manutenção de armamento, limpadores de câmara, chaves para ajustes de coronhas, punções e raspadores de carbono, além de um alicate projetado para trabalhos pesados.
- Leatherman Skeletool – minimalista e leve, aposta na simplicidade funcional: alicate, lâmina, abridor e bit driver. Um projeto pensado para quem quer portabilidade, mas sem abrir mão de intervenções rápidas.
- SOG PowerPint – EDC compacto com sistema de engrenagens (Compound Leverage) que multiplica a força aplicada no alicate. Traz tesoura, lâminas, chaves e adaptador magnético para bits, mantendo dimensões reduzidas.
Todas compartilham uma característica que, para mim, é central: a capacidade de receber bits variados para múltiplos tipos de parafusos. Essa função expande o uso muito além do “quebra-galho” e aproxima a multitool de uma ferramenta de trabalho real.
Relato de campo – Tazzio Matteo e o MUT que não resistiu
Por Tazzio Matteo – OVERLORD Projetos
“O Leatherman MUT foi adquirido com a expectativa de se tornar minha ferramenta definitiva para trabalhos táticos e manutenção de armas. Porém, a realidade foi outra. Em uma situação simples — a desmontagem de uma pistola Beretta APX para retirada de um estojo dilatado na câmara — bastou uma pequena tração mecânica para que o alicate quebrasse de forma abrupta.
Para um equipamento vendido como robusto, com preço na casa dos R$ 2.700,00, a falha foi chocante. O que veio depois foi ainda mais frustrante: a promessa de 25 anos de garantia não se sustentou. Comprado nos EUA, o MUT não teve cobertura no Brasil. A solução oferecida pela representante foi pagar praticamente um novo produto, com desconto irrisório, mediante coleta do danificado.
Pesquisando, descobri que não se trata de um caso isolado: há inúmeros relatos de MUTs quebrando antes do esperado. E isso mina a confiança na marca — especialmente quando a falha ocorre exatamente no ponto que deveria ser o mais resistente.”
Minha experiência com o Skeletool e o PowerPint
Meu Leatherman Skeletool seguiu um roteiro semelhante, mas com um período de glória antes da queda.
Escolhi-o pela leveza, ergonomia e funcionalidade para EDC. Ele não apenas atendeu, como me salvou em situações onde a ausência de uma ferramenta adequada poderia ter custado muito tempo ou agravado um problema. Desde pequenos reparos em equipamentos durante treinamentos até ajustes improvisados no meio de deslocamentos, ele foi confiável — até o dia em que o alicate quebrou, também em uma tarefa que não exigia força excessiva.
A falha foi decepcionante, mas não suficiente para condenar o modelo ao esquecimento. Conhecendo suas limitações e sabendo em que cenários ele brilha, eu daria ao Skeletool uma segunda chance.
Já o SOG PowerPint mudou minha dinâmica: menor, discreto, com o Compound Leverage realmente útil para potencializar a força no alicate.
Ele é mais “urbano” que “tático” e mais EDC do que “ferramenta de campo pesado”, mas dentro dessa proposta entrega solidez. Até agora, o único desgaste foi na pintura — e só estético.
O dilema da confiança
Aqui entra a provocação, caro leitor: quantas missões você está disposto a confiar a um equipamento que já falhou em mãos alheias — ou nas suas?
No universo militar e tático, repetimos mantras sobre redundância, sobre não depender de um único ponto de falha, mas muitas vezes entregamos confiança irrestrita a um objeto pela reputação de sua marca.
A verdade desconfortável é que uma marca pode ser lendária e ainda assim produzir um lote defeituoso, adotar políticas de pós-venda ruins ou simplesmente não atender a expectativa criada pelo próprio marketing.
E o problema não está apenas no momento da quebra. Ele está no que vem depois: o suporte, a política de reposição, a honestidade no reconhecimento da falha. É aí que se separa uma marca que merece ser chamada de parceira de campo de outra que só quer a sua próxima compra.
Comparativo técnico em bullet points
- Leatherman MUT
- Funções: Alicate, cortador de fio substituível, limpador de câmara, chave para parafusos de coronha, faca 420HC, serra, martelo, adaptador para bits, punção e raspador de carbono.
- Peso: 317 g | Tamanho fechado: 12,7 cm.
- Sistema de bits: Sim (padrão Leatherman).
- Garantia: 25 anos (restrições no Brasil).
- Preço médio: R$ 2.700,00.
- Observações: Foco militar/tático; funções específicas para manutenção de armamento; relatos de quebra no alicate; pós-venda no Brasil insatisfatório.
- Links: Site oficial | Amazon Brasil
- Leatherman Skeletool
- Funções: Alicate, cortador de fio, lâmina 420HC, abridor de garrafa, adaptador para bits.
- Peso: 142 g | Tamanho fechado: 10 cm.
- Sistema de bits: Sim (padrão Leatherman).
- Garantia: 25 anos (restrições no Brasil).
- Preço médio: R$ 900,00 a R$ 1.200,00.
- Observações: Leve e funcional para EDC; quebras no alicate já registradas; excelente portabilidade; útil em diversas situações antes da falha.
- Links: Site oficial | Amazon Brasil
- SOG PowerPint
- Funções: Alicate com sistema de engrenagens (Compound Leverage), cortador de fio, lâmina lisa e serrilhada, tesoura, chaves variadas, punção, abridor de lata/garrafa, adaptador para bits magnético.
- Peso: 119 g | Tamanho fechado: 9,5 cm.
- Sistema de bits: Sim (padrão SOG).
- Garantia: Vitalícia limitada.
- Preço médio: R$ 500,00.
- Observações: Compacto, ideal para EDC; bom ganho de força no alicate; desgaste apenas estético até o momento.
- Links: Site oficial | Amazon Brasil
Conclusão – A escolha consciente
A multitool perfeita não existe — e talvez nunca vá existir.
Existe, sim, a ferramenta mais adequada para o seu perfil, a sua missão e o seu nível de tolerância ao risco.
O MUT entrega funções únicas para manutenção de armamento, mas cobra caro e não perdoa falhas estruturais.
O Skeletool é rápido, leve e prático, mas não é feito para abusos mecânicos e precisa ser usado dentro do seu limite estrutural.
O PowerPint é compacto, acessível e confiável até agora, mas não pretende ser a ferramenta de campo pesado.